Tu tens um relógio, Senhor? Teu relógio não anda? Por que te demoras? Ajunta-nos! Ajunta-nos novamente, Senhor! Leva-nos a Ti como crianças! Pois sem papai-do-céu não podemos viver. O que está faltando? Pra nós o tempo acabou. Tu esperas de nós? Estamos cegos, surdos e mortos. Não dá mais pra esperar – Por favor, não nos mande esperar mais um pouco! Não agüentamos mais. Muitos se perdem, muitos morrem, muitos vêm e vão. Não entendo por que insistes em Se esconder de nós. Fala e Se esconde. E depois a mesma coisa: fala e Se esconde novamente. Não há mal pior na terra do que o Senhor se esconder da gente. Que fazes? Que plano é esse? Pois estamos famintos... Desfalecendo de tanta fome. Nos matando a cada dia sem o Senhor por perto. Os teus filhos, que batem cabeça nas ruas, nas praças, se acabando em dor por não ter mais o Pai aqui. Éramos estrelas, vasos de honra. Cantávamos. Estávamos Contigo. Todos juntos. Agora vagamos. Sem casa, pois Sua Casa quebrou, botaram fogo, expulsaram Seus filhos, abandonados, se arrastam, sem ter onde beber. Morrem de sede – e os nossos olhos vêem. Todos os dias. Acordamos cedo e nada muda. Somos burros de carga. Escravos da obra sem ter o que fazer...
Eu me lembro dos dias em que estávamos na Tua casa e estávamos juntos. Todos os filhos do Senhor, juntos. Eu me lembro que ao ter que fazer ou resolver algo com o ímpio, Tu nos tomavas por inteiro e, cheios do teu Espírito, não precisávamos temer. Hoje os homens são cada vez piores. Estão sempre nos espreitando. Por que Te escondes? Acaso há algo pior do que ter que “se virar” aqui neste mundo ao qual não pertencemos. Quando choramos não temos quem nos console. Estamos nos tornando como pedras. A cada dia mais duros por tantas lutas e guerras que não queríamos travar. Se está tudo pago, por que ainda estamos aqui? Se Jesus se ofereceu por nós, por que não nos tira logo daqui? Perambulamos e sobrevivemos numa terra perigosa de um povo perverso, de impuros lábios e de mente grossa. Nos adaptamos às cargas. Por causa da vida (que poderia se chamar morte, pois de Vida não tem nada). Gritamos para o alto, mas não existe resposta. Os dias são longos e não sabemos o que nos espera. Tudo é concurso, é loteria – não sabemos se vamos vencer e não sabemos o que é a Verdade.
Quando no passado um homem apareceu pregando diferente dos homens, então o chamaram de louco, e não quiseram permitir sua permanência entre nós. Era a única coisa que tínhamos, pois o restante já sabíamos que não dava em nada. As palavras, as bocas, os olhos não diziam nada. Estamos sem direção, estamos andando em círculos. Não enxergamos um palmo diante do nariz. Não, a culpa não é dos homens. Senhor, Tu mesmo nos entregaste a isso. Pai, te suplicamos, volta para nós! Por favor, não olhe para as nossas iniquidades. Não espere de nós arrependimento e orações. Tu o sabes: não mora em nós o arrepender-se e deixar o pecado.
Qual é a oração que Te toca? Qual é a dor que Te machuca? Olhando pra gente não Te comove ver tamanha cegueira, tamanha sujeira? O que podemos dizer para Te fazer ter compaixão de nós a ponto de fazer-Te voltar atrás nos Teus castigos, os quais hoje se estendem sobre nós? Quais os olhos que, chorando, Te fazem sair dos Teus planos, Te fazem se arrepender, e Te compadeceres e com pressa correr ao socorro dos Teus filhinhos? Senhor, olha! É teu povinho que Tu mesmo chamaste de ovelha sem pastor. Então, agora tem misericórdia da gente e vem ao nosso encontro e quebra-nos para não lançarmos ainda mais sujeiras entre o Céu e a Terra.
As palavras da Bíblia falam, constantemente, de responsabilidade. Somos responsáveis? O que somos senão uma pulga? Não aguento mais ouvir pregações... De porta em porta. De boca em boca. Sem o menor efeito para todos... Tu não podes estar dizendo tais palavras. O Senhor não é contradição. Vocês devem... Vocês não podem... O que é isso? Quem dera que pudéssemos chorar e voltar atrás por nossas próprias pernas! Com nossas próprias cabeças! Eu me lembro que em todos os séculos sempre foi assim – um holocausto. Quando foi que a Historia não contou o mesmo acontecimento? Os Teus filhos sendo levados para o cativeiro pelas mãos dos inimigos? O capítulo oito de Daniel fala de tudo isso, Deus:
“Vi-o chegar perto do carneiro; e, movido de cólera contra ele, o feriu, e lhe quebrou os dois chifres; não havia força no carneiro para lhe resistir, e o bode o lançou por terra, e o pisou aos pés; também não havia quem pudesse livrar o carneiro do seu poder. O bode, pois, se engrandeceu sobremaneira; e estando ele forte, aquele grande chifre foi quebrado, e no seu lugar outros quatro também notáveis nasceram para os quatro ventos do céu. Ainda de um deles saiu um chifre pequeno, o qual cresceu muito para o sul, e para o oriente, e para a terra formosa; e se engrandeceu até o exército do céu; e lançou por terra algumas das estrelas desse exército, e as pisou. Sim, ele se engrandeceu até o príncipe do exército; e lhe tirou o holocausto contínuo, e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo. E o exército lhe foi entregue, juntamente com o holocausto contínuo, por causa da transgressão; lançou a verdade por terra; e fez o que era do seu agrado, e prosperou”.
O bode nos lançou por terra e tirou o holocausto contínuo que oferecíamos a Ti, na Tua Casa. Sim, ele mesmo, o bode, o Inimigo de nossas almas pisou as estrelas do céu, as estrelas do teu exército e o Teu Santuário, Senhor, ele derrubou. E Tu mesmo permitiste. Jogou toda a verdade por terra, fez o que quis e prosperou. E o Senhor, o Senhor mesmo, entregou-nos para sermos pisados e hoje andamos errantes e dispersos por outras terras, sem casa, com fome, com sede, sem Pai, abandonados. Senhor, não podemos aceitar isso calados. Dá-nos voz. Dá-nos choro. Precisamos clamar a Ti agora. Que se derramem as lágrimas. Que se peça socorro. Pois confusos estamos. Tu deixaste Daniel também confuso, pois ele mesmo deve ter imaginado: estou no cativeiro e Deus já anuncia outro?! O que vai ser de nós? Eu vejo as lágrimas de Davi, Teu filho, quando disseste que os filhos dele iriam ter com a espada no futuro. Senhor, então Tu não terias poder para nos perdoar? Pai, a tua longanimidade me assusta, pois nós preferíamos que viesses a nos castigar de uma vez, pois assim poderíamos voltar pra Ti logo.
Pai, Jesus sabe o que é não ser respondido na dor e na solidão. Existe algo de pior no mundo que um filho de peito clamar pela mãe e esta não vir ao seu socorro? Senhor, desmamados estamos. Fraqueza até mesmo na voz. Não espere mais um minuto! Pois o tempo é nosso inimigo. A cada momento cresce o que nos traz a divisão. Os filhos da Verdade não se alimentam de alimento misturado. Nossa casa de oração foi invadida por ratos. Estão apascentando porcos no teu altar. E nós morremos sem pão. O livro de Lamentações relata o nosso sofrimento. O Senhor não teve compaixão.
Um dia eu vi pelas mãos do Senhor, as lágrimas de algumas estrelas de Tua casa. Eles não sabiam, mas choravam por um dia que ainda chegaria. Não, não eles, mas suas almas choravam pelo dia em que o Senhor os levaria para longe da Verdade. Eu me lembro que um deles vinha do trabalho e, mesmo na condução, já sentia os reflexos da dor na alma, profundamente. Este mesmo, chegando em casa, não pensou em nada. Não tocou em nada. Entrou para o quarto e, sem dizer uma palavra, chorou com o rosto em terra sem mesmo entender o que acontecia. Sua esposa, que estava em casa vendo a cena, se compadeceu de tal forma que o temor caiu sobre ela ao ponto de fazê-la como vitima naquele lamento incontrolável e incompreensível. Eles não sabiam que havia um plano incompreensível nas mãos de Deus para sujar as estrelas e derrubá-las. Choravam amargamente, mas Deus não voltou atrás. Como disse Jeremias, no livro de Lamentações, não se compadeceu. Eu me lembro também que outro vaso de honra estava de viagem para buscar a esposa que estava com um grupo de mulheres em um evento de busca espiritual. O mesmo é líder de uma igreja e, durante a viagem, sem explicação, caiu em pranto, derramando lágrimas como água sem saber o que estava por vir. A dor era grande, pois o que o Senhor ia fazer era extremamente sério. O Senhor afastaria esses dois vasos de ouro muito importantes na sua casa da Verdade. Eu não pude dizer uma palavra, mas doeu Também em mim. Foi um choque para minha alma. Essa historia não está destacada da Historia da Igreja. Nossas vidas sempre estiveram envolvidas em guerras. Na terra de nossas peregrinações, nunca tivemos sossego. Hoje eu vejo os meus irmãos cegos e surdos, vagando de nariz para cima, sem saber que o Evangelho não se faz de desprezo. Hoje eu os vejo, mas eles não sabem o que se passa.
Eu sei, Pai, meus irmãos no passado também passaram por isso, mas eles também relataram como sofreram sem poder fazer nada para ajuntar o que foi dividido. Eles acham que estou acabado, mas eu é que gostaria de ajudá-los, mostrando-lhes o Mundo. Afastaram a Davi, Jeremias, Daniel, Moisés, João, Paulo, Jesus e a mim também. Eu carrego a dor de não poder mostrar a eles que o Senhor está em lágrimas enquanto eles cantam. O Senhor os castiga, enquanto eles dançam. Eu vi de perto eles sendo levados para o cativeiro sem ver o futuro. A visão inocente de crianças enganadas seqüestrou-lhes a cabeça e eles não puderam entender. O derramar do Espírito estava sendo vedado e os milagres cessados, sem que nada se pudesse fazer. Pode o Plano falar mais alto do que a dor? Pode a razão falar mais alto do que a saudade? Acaso as medidas podem ter mais valor que a necessidade? Quem dera que nós pudéssemos telefonar pra o Céu – quem será que nos atenderia? Quem dera que fôssemos perturbadores do sossego de Deus – certamente seríamos vistos como dignos. Acaso pode o vaso dizer ao seu Senhor o que Ele deve fazer? Certamente que não. Mas o vaso pode dizer ao seu Senhor o que ele necessita receber. Senhor, por favor, olha pra nós e lembra-Te de nós, Senhor, como fizeste com o teu povo quando este envelhecia na terra da sua escravidão:
“... e os filhos de Israel gemiam debaixo da servidão; pelo que clamaram, e subiu a Deus o seu clamor por causa dessa servidão. Então Deus, ouvindo-lhes os gemidos, lembrou-se do seu pacto com Abraão, com Isaque e com Jacó. E atentou Deus para os filhos de Israel; e Deus os conheceu”.*
É a nossa última oração...
*Versículo da Palavra de Deus:
Ex 2.23-25